Zanettini, um arquiteto com fibra de aço

12/07/2011

O arquiteto Siegbert Zanettini, pioneiro no uso das estruturas metálicas no país, fala da importância da tecnologia no novo cenário de desenvolvimento do Brasil.

Centro de Pesquisas da Petrobrás (Cenpes), Rio de Janeiro
Novo centro de Pesquisas da Petrobrás (Cenpes), no Rio de Janeiro, um dos mais recentes projetos de grande porte de Zanettini, que tem o aço como elemento de destaque.

Pioneiro do aço no Brasil o arquiteto Siegbert Zanettini acompanha, desde a década de 1970, todas as etapas desta tecnologia no País. Sua opção pelo aço vem desde a época em que não havia mercado fabricante nem disciplina nas escolas brasileiras sobre o assunto. Desafiando todas as dificuldades, empenhou-se na missão quase impossível de conquistar setores e segmentos da cadeia da construção civil, cooptando o apoio de instituições que viessem a utilizar esse material no futuro.

Enquanto Zanettini travava essa luta quase solitária pela consolidação dessa tecnologia, o uso do concreto como elemento primordial na construção fazia história no Brasil. Le Corbusier utilizou o material como principal elemento básico estrutural. Com o tempo, o material passou a ser usado não só como elemento estrutural, mas também como elemento de fechamento que caracterizou a fase da arquitetura moderna brasileira do concreto aparente. Isso acabou se tornando um modismo principalmente em São Paulo. Sem desanimar, Zanettini se empenhava em difundir o conhecimento sobre a tecnologia metálica. “Estava claro para mim a necessidade de difusão do que já era feito no mundo inteiro sobre o aço – nos Estados Unidos esse material já era usado desde o século 19 e as principais construções acima de 15 pavimentos eram todas feitas em aço. No Japão cerca de 50% das construções são em aço; em países como Inglaterra, 65% são com estrutura metálica”, recorda.

Visionário, começou a elaborar, já no início da década de 1970, projetos dentro do conceito da construção industrializada, utilizando a tecnologia do aço, coincidindo com o aparecimento das primeiras siderúrgicas e de novas fábricas de estruturas metálicas e indústrias de componentes. É dessa época a primeira indústria em aço, fabricada e montada pela Pierre Saby, projeto de Zanettini. Nele, o arquiteto testou na prática a diferença entre construir utilizando estrutura metálica e o sistema convencional. Nessa obra foram montadas a estrutura e o fechamento metálico em 45 dias, um recorde para a época. Algo que levaria um ano e meio, pelo menos, se fosse feito pelo método convencional. Este foi um grande passo na história do aço no Brasil. Depois vieram outros projetos – de postos de gasolina, escolas, agências bancárias e habitações. Aos poucos Zanettini foi desbravando, abrindo novos caminhos para a utilização de estruturas metálicas na construção, mostrando que o aço era um material para ser adotado como sistema definitivo, e não apenas para construir galpões provisórios, como se pensava no Brasil.

Grandes Construções entrevistou esse arquiteto, que registrou no aço o seu nome na história da arquitetura brasileira. Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, em 1961, Ziegbert Zanettini pertence à primeira geração de Professores Doutores da Universidade de São Paulo, em 1972. Premiado pela Associação Brasileira da Construção Metálica (ABCEM) com o título de Personalidade da Construção Metálica por seu papel na difusão do aço na construção civil brasileira, completa este ano 50 anos de carreira. Inquieto, sempre que lhe perguntam qual foi a sua mais importante obra, ele responde: “Provavelmente será a próxima”.

Siegbert ZanettiniGrandes Construções – O Brasil demorou a introduzir a tecnologia da estrutura metálica no cotidiano construtivo. Em sua opinião, ao que se atribui essa resistência?

Ziegbert Zanettini – Apesar de ser muito usado no mundo desenvolvido, de fato demorou mais de 40 anos para chegar aqui. Isso sempre me incomodou, pois se trata de matéria-prima abundante no País, que é erroneamente exportada. Já naquela época eu achava que deveríamos produzir perfis, chapas, produtos com valor agregado, para uso interno e para exportação, ao invés de minério. O produto acabado introduz mais valia na utilização do material e da mão de obra, por conta da tecnologia e do conhecimento necessário. Isso contribui para elevar o padrão do operário e do seu aperfeiçoamento, bem mais que outros sistemas estruturais e construtivos. Por sua vez, o conhecimento da tecnologia limpa exige uma outra postura de profissional em termos de trabalho e experiência com um treinamento técnico mais amplo. Algo como foi aplicado, por exemplo, no projeto do Centro de Pesquisa da Petrobras, o Cenpes, no Rio de Janeiro.

GC – Esta é uma das principais obras em aço executadas recentemente no país, não?

Zanettini – Foi uma obra que arregimentou dois mil e oitocentos homens. Foi preciso realizar o treinamento desse pessoal para mostrar o uso dessa tecnologia diferenciada, em que toda a produção vinha praticamente pronta de fora. Com exceção das fundações, nada foi feito no local. Todos os subsistemas vinham prontos para serem montados, até com detalhes de acabamento, como painéis, divisórias e mobiliário. Eu sempre acreditei que a qualidade de uma obra era mais garantida quando produzida na indústria, onde se utiliza análise de Raio X da solda, por exemplo, no caso das estruturas metálicas. No canteiro, o controle da qualidade é mais variável, pois depende do nível da mão de obra e das várias circunstâncias que cercam o canteiro.

GC – No Brasil os canteiros de obras ainda aplicam uma lógica mais artesanal, não é isso mesmo?

Zanettini – Existem variações em cada tipo de obra, que são mais ou menos comuns. Mas à medida que o antigo Banco Nacional de Habitação (BNH) adotou uma política de utilizar mão de obra desqualificada para as obras por ele financiadas, na verdade, gerou uma indigência construtiva na construção civil, que permanece até hoje. Ainda temos um desperdício de mais de 25% nas obras, e ausência de qualidade no sentido da busca da obra correta. Exemplifico: é comum ocorrer na obra convencional a execução de camadas de argamassa de três, quatro, cinco centímetros, quando não deveria passar de dois centímetros. Mas é feito assim para cobrir imperfeições ou má execução.

Os resíduos não só lotam caçambas espalhadas por toda cidade como também ficam na obra pela má qualidade da execução. Ou seja, foi criado um padrão muito ruim para as obras, principalmente a partir do caminho adotado pelo BNH, o que motivou construções de péssima qualidade, tanto do ponto de vista urbanístico como arquitetônico. Por isso, até hoje existe no Brasil uma cultura do desperdício, não reaproveitamento, tampouco reciclagem de materiais. Aqui no bairro da Vila Olímpia (SP), onde se situa o meu escritório, quadras inteiras foram demolidas, sem nenhuma preocupação de aproveitamento de esquadrias, madeiras, telhas, tijolos, que poderiam servir a outros usuários. Como professor universitário e arquiteto, eu sempre defendi que tínhamos de passar para outra etapa evoluída da construção.

GC – Pode-se dizer que a construção industrial está vinculada ao maior senso de racionalidade?

Zanettini – Eu comecei a trabalhar, já no fim da década de 1960, com madeira cultivada de pinho, algo que só hoje está sendo utilizado. Fui pioneiro a fazer isso. Eu achava, até por ser professor da universidade, que tinha obrigação de investir o mais possível em novas tecnologias. Inclusive por ser um arquiteto com experiência na área de engenharia e com formação muito densa no aspecto tecnológico, cujos conceitos marcaram parte significativa da minha produção. Também fiz para a Eco 92 o projeto da Casa Limpa, com todos os princípios que caracterizam hoje o conceito de sustentabilidade, e que já continham a noção de produção limpa, com o canteiro de obras como local de montagem de produtos industrializados. Já na época abordava os problemas de educação do pessoal, de preservação do meio ambiente e de reciclagem dos materiais.

GC – Seus primeiros projetos com foco na estrutura metálica, já na década de 1960, representaram grande inovação para a arquitetura praticada na época, no País.

Zanettini – Eu não estava inventando nada, apenas mostrando por que não utilizarmos essa tecnologia do aço, justamente num país que é, talvez, o mais rico em minério de ferro. Vim, digamos, da pré-história do aço. Tive de enfrentar tabus de todas as formas por conta disso. Por exemplo, quando tive de fazer o projeto do ginásio de esportes da Telesp, o caderno de encargos da empresa proibia expressamente o uso do aço. No entanto, como queriam inaugurar o ginásio em seis meses, eu alertei que se não fizéssemos a estrutura em aço, isso não seria possível. Então acabei rompendo mais um tabu. Isso mostrava a ignorância geral sobre o material, inclusive da parte dos professores de engenharia e arquitetura. Não havia disciplinas tanto na Escola Politécnica como na Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (FAU). Na época não existia nada sobre o uso do material.

Estádio de Manaus
Para Zanettini, o projeto do estádio de Manaus é exemplo de absurdo, por ser um projeto avaliado em R$ 750 milhões, para uma região onde o futebol não tem grande receptividade.

GC – Como ocorreu essa evolução acadêmica do aço?

Zanettini – Comecei a fazer o primeiro curso de estrutura metálica na FAU, como disciplina optativa na década de 90 para conscientizar os estudantes que, à medida que eles tivessem contato com a tecnologia, se interessariam. Nessa época, eu participava de bancas de graduação e me lembro que no momento um único aluno apresentou um projeto em aço. Dez anos depois eles representavam quase metade dos projetos. Isso mostra o quanto foi importante criar o curso e incentivar a reflexão e o exercício de projetar com o aço, além de formar profissionais com o conhecimento dessa tecnologia. A criação da Associação Brasileira da Construção Metálica (ABCEM), na década de 70, foi outro passo importante. Posteriormente, visando o desenvolvimento do mercado da construção em aço, criou-se o Centro Brasileiro da Construção em Aço (CBCA) , organização que atualmente promove o “IV Concurso CBCA para estudantes de Arquitetura 2011”, evento do qual faço parte como membro da comissão julgadora.

GC – A indústria começou a se desenvolver nessa época?

Zanettini – Fábricas começaram a aparecer, não só em São Paulo, mas também em Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Nos últimos 10 anos, essa indústria começou a ganhar força, tornando-se mais competitiva nas questões da qualidade e prazos. Tanto que hoje tenho utilizado o aço em projetos como hospitais, escolas, agências, indústrias, centros de pesquisas, entre outros, coisa que era impossível antigamente. O aço pode ser aproveitado sob as mais variadas formas, como estrutura e componentes de uma obra.

GC – O senhor acha que o custo ainda seja um empecilho competitivo?

Zanettini – Este é outro tabu. Havia a ideia de que a estrutura em aço tem o mesmo comportamento da estrutura em concreto. Era comum um cliente pedir para comparar um projeto de concreto com o mesmo projeto em aço para poder analisar custos. O que ocorre é que um projeto arquitetônico em aço já deve ser concebido em aço, pois isso permite que, ao invés de compor a estrutura com pilares espaçados de 5 m, seja possível locar pilares distantes a 10 m com a mesma altura de viga, ganhando prumadas inteiras de pilar incluindo fundações. Ou seja, não se pode raciocinar da mesma maneira com sistemas diferentes, pois o comportamento estrutural é totalmente diferente. A obra não é só estrutura, cujo custo médio gira em torno de 25% a 40% dela, mas um conjunto enorme de componentes para completá-la e que realmente pesa no seu custo. Por isso, a meu ver, é um engano dizer que o aço é mais caro. Tanto isso é verdade que seu uso tem avançado rapidamente para obras de grande porte, galpões industriais, centros de distribuição, aeroportos, estações de trem, de metrô, ginásios, estádios, em detrimento de projetos em concreto. A maioria dos estádios, hoje, é feita em aço. O estádio do Maracanã, por exemplo, não pode completar sua cobertura em concreto. O cimbramento de madeira que seria necessário é cada vez menos disponível no mercado. A maior parte dos estádios para a Copa será feita em aço.

GC – O Brasil está preparado para este boom de obras que irão ocorrer?

Zanettini – Nos últimos cinco anos houve uma evolução muito marcante em todos os setores. Hoje temos empresas do porte da Usiminas, Cosipa, Açominas e Gerdau. Há um nível de produção siderúrgica de fabricação metálica existente cuja demanda o país é capaz de absorver. Depois do projeto do Cenpes, cujo co-autor é José Wagner Garcia, foi demonstrado que é possível fazer qualquer tipo de obra metálica no Brasil porque ela é uma das maiores obras de estrutura metálica já feita no país. É uma complexa construção, executada pela maior empresa brasileira que aceitou fazer um projeto dessa magnitude, utilizando tecnologia limpa, sem desperdício, sem resíduos e principalmente segura. Tivemos ali total segurança no trabalho de 11 milhões de homens-hora sem acidentes. Um marco mundial, sem dúvida.

GC – O Brasil está preparado para fornecer as estruturas metálicas que serão empregadas nestas novas obras?

Zanettini – Provavelmente a parte metálica será feita no Brasil. Porque já estamos bastante adiantados nisso e temos condições de fornecer esse sistema completo. Importar ficaria muito caro. Aqui temos matéria-prima, mão de obra mais barata, uma série de condições que outros países não têm. O aço usado no Japão, por exemplo, tem toda a sua matéria prima importada do Brasil.

GC – Como o senhor vê a preparação do Brasil para receber os grandes eventos da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos?

Zanettini – Com respeito à Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, há um panorama político de contratação. São contratos de interesses de grupos nacionais e internacionais. Interesses políticos e econômicos, um cenário que alijou todos os arquitetos brasileiros importantes e não incentivou a execução de projetos com a nossa identidade. Não há duvida de que entendemos mais de nossos problemas do que os profissionais de fora. Nesses estádios a gente vê alguns absurdos. Eu cito um pelo menos: o estádio de Manaus, por exemplo, com capacidade para 75 mil pessoas e volume inicial de investimentos da ordem de R$ 750 milhões. Imaginem um estádio deste porte onde o futebol não tem grande receptividade. É o que está acontecendo na África e na China: estádios monumentais, com custo de manutenção altíssimo e que acabam ociosos. Eles estão com problemas sérios, porque não têm como manter essas arenas. E aqui podemos ter problemas semelhantes porque apenas cinco ou seis estados têm eventos de porte para se manter um estádio como esse.

GC – E a questão da infraestrutura?

Zanettini – Este é outro aspecto que precisa ser abordado, porque a melhora da infraestrutura deveria ser o maior legado desses eventos para a população. Não se constrói um aeroporto de nível internacional em dois anos, a logística de transporte vai pesar muito mais do que os estádios. Também existe a questão dos hotéis e de como fazer esse deslocamento pelo País. É inexplicável disseminar a Copa por 12 cidades. Uma viagem até a Amazônia é como uma viagem a qualquer país vizinho. Imaginem um torcedor que já vem de fora, se deslocar dessa maneira atrás do seu time. Não é um processo que facilite o fluxo dos turistas, foi mais uma decisão política.

GC – Qual será o legado a ser deixado?

Zanettini – Quando se fala em legado, nós devemos voltar ao exemplo de Barcelona. Lá, muito antes de se pensar em estádio, havia um plano urbanístico, pensando na infraestrutura de todos os projetos e obras que seriam deixados para a cidade e a população. A cidade de Londres, onde serão os Jogos Olímpicos de 2012, já terminou a maior parte de suas obras, principalmente aquelas que envolvem mobilidade. Eles se preocuparam com toda a infraestrutura, com planejamento urbano e com a forma como as pessoas circulam e usam os espaços públicos. Vejo com algum ceticismo a forma como as ações foram e estão sendo conduzidas. Deveria ter sido feito um estudo da situação dos estádios no país e de como aproveitá-los e não demoli-los, esta última é uma atitude contrária às noções de ecoeficiência e sustentabilidade. Seria adequado, também, priorizar regiões em que realmente tem público, como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Minas Gerais, que são polos futebolísticos e econômicos importantes.

GC – Seria uma grande oportunidade para a arquitetura brasileira?

Zanettini – Sim. Seria uma oportunidade para incentivar a nossa arquitetura e novos desafios aos arquitetos, engenheiros e construtores, enfim, um trabalho organizado pelo Brasil, por brasileiros, dando um salto qualitativo e contemporâneo ao setor. Infelizmente não está sendo assim. Mas, independente desses eventos, tem havido uma grande renovação da engenharia e arquitetura brasileiras, principalmente nos últimos cinco anos. Isso coincide com a criação de disciplinas de estrutura metálica nas faculdades, despertada justamente pelo objetivo de fomentar a arquitetura contemporânea.

O modernismo, de uma forma em geral, teve um período histórico importante, que culmina na década de 60, e, em seguida, começa a declinar. Porque, como já escreveu Anatole Kopp, o que era uma causa no início tornou-se um estilo, perdendo parte de seu significado. Foi a partir do Centre Pompidou, em Paris, na década de 70, que teve início a arquitetura contemporânea na qual eu me engajei desde essa época. Foi a partir desse período que começou a aparecer a arquitetura para o Século 21, como uma simbiose entre ideias e tecnologia, visando uma maneira sustentável de ver o futuro de uma forma eficiente e equilibrada, e que coincide com a tecnologia do aço produzida com controle e desperdício zero. Neste aspecto, cito outro projeto recente, o Centro de Pesquisas da Schlumberger, exemplo de alta tecnologia, onde foi alcançado o nível zero de desperdício, não somente nos conceitos, mas também nos custos. É o uso do material em sua plenitude.

GC – A questão da sustentabilidade é o principal diferencial entre a arquitetura contemporânea e moderna?

Zanettini – O movimento moderno era unidimensional assim como os movimentos que se seguiram, o pós-moderno e o desconstrutivismo, que tinham na estética sua grande base de referência. Fazer arquitetura para o arquiteto moderno era fazer o belo, o destaque do gesto. A arquitetura contemporânea é pluridimensional e holística. Trata-se de uma obra que tem de ser utilizada, dar conforto, bem estar, atender as questões climáticas e condições funcionais. A arquitetura é uma obra de arte utilitária, que tem no homem e no meio ambiente suas principais referências.

GC – A difusão do aço no País tende a crescer com a demanda por tecnologia e rapidez?

Zanettini – Quando utilizei o aço como um elemento extremamente importante em algumas obras recentes, capazes de ajudar a acelerar o processo de desenvolvimento da pessoa no seu ambiente de trabalho, começou-se uma verdadeira revolução, no meu modo de ver a arquitetura. São projetos de centros de pesquisas, hospitais, escolas, fábricas, que mostram como o projeto contribui para a organização do espaço coerente com sua época. O usuário não é um mero paciente, como sempre foi visto ao longo do processo habitacional brasileiro, onde a ideia principal era e ainda é: “o cliente se enquadra no produto”. Nunca o usuário foi pensado como elemento chave, a razão de ser da arquitetura. A maioria das escolas de arquitetura ainda está dentro do conceito do movimento moderno, trabalhando sob seus princípios, porque essas escolas foram desdobramentos da FAU. Sei disso porque lecionei lá 40 anos, e fiz várias publicações sobre o ensino da arquitetura. Em qualquer escola fora de São Paulo onde se queira falar em aço, não existem condições, nem professores, nem laboratórios. E a evolução tecnológica só é possível com a evolução do ensino de arquitetura e engenharia integrados, conquista a ser feita pelas escolas de engenharia e arquitetura.

GC – O senhor acha que existe certa resistência das construtoras a esse processo?

Zanettini – Com certeza, existe sim. Elas preferem projetos que atendam as pressões especulativas de mercado, com o empilhamento de unidades que vão se repetindo à exaustão. E o uso do computador agilizou a repetição e a padronização dos projetos. Se o melhor da tecnologia ainda não chegou às instâncias superiores de decisão, imagine ao consumidor comum. A questão da habitação está muito ligada à questão econômica. Não se pode falar em habitação sem falar em financiamentos da Caixa Econômica Federal e de outros órgãos estatais. E todos são refratários à evolução da construção. Toda a estrutura econômica e política não incentiva, assim como não favorece o uso de novas tecnologias. Ainda é forte a resistência em relação ao aço, também por causa da falsa ideia de perigo em caso de incêndio.

GC – Algo está mudando?

Zanettini – Aos poucos as coisas vão mudando. Porque na realidade, a arquitetura ainda é uma mercadoria, e como mercadoria, ela tem valor muito grande, pois lida com o direito de posse alimentado pela ideologia enraizada da casa própria. A pessoa prefere ter um apartamento mais barato, mesmo que mal feito. E com as condições usuais ainda presentes de programas sem urbanismo e arquitetura, além das opções de financiamento, perpetua-se esse processo. Quando a pessoa sai da favela e vai para uma unidade de 48 m², ela começa a fazer parte do código da cidade, algo que não ocorria na sua situação anterior, e isso é muito determinante.

GC – No entanto hoje o aço ganhou seu espaço no país?

Zanettini – Há certas áreas da cadeia construtiva onde não há dúvida sobre o uso do aço. Em projetos que exigem mais racionalidade, durabilidade e funcionalidade, já não se pensa em usar outro material. O projeto do Cenpes da Petrobras tem sido muito visitado como referência, não somente pelo uso do aço, mas também por novas tecnologias e pelo completo atendimento aos conceitos de sustentabilidade e ecoeficiência. É um projeto que funciona. Tudo foi calculado e pesquisado em laboratório antes de ser aplicado.

GC – Qual é o futuro da construção brasileira?

Zanettini – Acho que temos de pensar no futuro. Pensar que o Brasil tem condições excelentes de desenvolver tecnologias, não só de aço, mas de qualquer outro sistema. A tecnologia do concreto, por sua vez, teve um forte desenvolvimento. Eu faço projetos em concreto, quando se trata de usá-lo adequadamente. Por exemplo, um projeto de hospital com vãos pequenos na sua estrutura portante de concreto pode ser uma ótima solução. Pode ser também uma solução mista aço-concreto, como foi feito no Cenpes. Todas as torres de escadas e elevadores que trabalham a compressão, assim como cisternas e castelos d´água, foram feitos de concreto. Ou seja, há novas tecnologias a explorar e maneiras corretas de utilizá-las. Rino Levi, por exemplo, usou o concreto sob soluções térmicas excelentes, com parassóis de proteção solar, varandas e beirais que dispensavam o uso do ar condicionado.

GC – Depois de completar 50 anos de profissão, qual sua mensagem para os novos arquitetos?

Zanettini – Meu desejo é poder deixar um legado importante para as novas gerações, com uma nova visão sistêmica de mundo, onde novos profissionais possam desenvolver seu próprio caminho e ainda avançar mais. Levei 40 anos para sedimentar um caminho, mas os que nos sucederem devem levar menos tempo. O meu objetivo sempre foi o de contribuir de todas as formas para desenvolvermos um trabalho de evolução constante para um mundo melhor, mais justo, mais equilibrado e mais belo.

Fonte: CBCA - Centro Brasileiro da Construção em Aço